Felipe Pena, professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense apresentou o artigo: Simplicidade ou pobreza vocabular? (OS verbos no telejornalismo brasileiro) no VIII Encontro dos Núcleos de Pesquisada Intercom – NP de Jornalismo e abordou uma questão bastante polêmica: Simplicidade ou Pobreza Vocabular?
Através de uma série de pesquisas sobre a linguagem do jornalismo na TV, Felipe Pena estudou o formato dos principais telejornais brasileiros, o uso dos verbos nesses telejornais e suas respectivas aplicações.
Por meio deste artigo, podemos constatar a importância do som no telejornal, “a velha máxima uma imagem vale mais que mil palavras”, está cada vez mais sendo desbancada, haja vista que para se ter o “todo da informação”, é indispensável a utilização dos outros sentidos e não apenas a visão.
Segundo Umberto Eco, “a linguagem televisiva é uma combinação de três códigos: o icônico, o lingüístico e o sonoro”, essas combinações são utilizadas para a compreensão da mensagem.
É fundamental ressaltar que o texto deixa claro como é importante a linguagem verbal na TV, independente de se ter alguma imagem quando vai veicular alguma notícia, a narração do repórter é indispensável para a compreensão dos fatos.
Este artigo aborda não só a questão dos sentidos para percepção da notícia, mas a forma como essas informações são veiculadas. O uso do coloquial é imprescindível para a compreensão da mensagem. Para Vera Íris Patenostro, a linguagem coloquial é uma exigência do texto jornalístico na TV. “Quanto mais palavras forem familiares ao telespectador, maior será o grau de comunicação”. Esta afirmação tem como conseqüência “uma óbvia limitação vocabular”.
Felipe Pena ao expor esse artigo baseou-se nesses conceitos para fazer a análise nos telejornais. Ele constatou que, mesmo com as mudanças que foram implantadas nos telejornais ao longo dos anos, como a troca dos locutores por jornalistas de carreira que ficaram responsáveis pela edição e construção dos textos, a linguagem utilizada se manteve no mesmo nível, “a receita de bolo” impera até hoje nos telejornais. Nos cinco principais telejornais analisados há uma grande incidência dos verbos ser, ter, estar.
Com tudo o que foi exposto, a forma como foi realizada essa pesquisa nos faz concluir que os jornalistas elaboram os telejornais de acordo com a cultura dos telespectadores, como já se tem conhecimento, essa “produção” é feita visando o público médio dos telespectadores. Esta afirmação pode ser feita diante da declaração do editor chefe do Jornal Nacional Willian Bonner que, compara o público do telejornal com o personagem Hommer Simpson, isso é uma forma de “subestimar o público”, ele conclui que o telespectador não conseguirá entender a notícia se ela for elaborada de uma outra forma, com uso de outras palavras. O uso do coloquial não justifica essa “pobreza vocabular”.
A busca pela audiência, acredito que seja a grande responsável pela perpetuação dessa conduta. É necessário ressaltar que a televisão atinge um grande público, a “grande massa”, não no sentido da homogeneidade onde não há público diferente, com culturas diferentes, mas por ser um canal que de fácil acesso, onde a grande maioria das pessoas se informam através da TV, do telejornal .
Com a evolução dos meios de comunicação, a TV teve que se adequar para não ficar de fora, a busca pela imediaticidade,“o furo de reportagem”, vem contribuindo cada vez mais para a superficialidade da notícia. Por isso cada vez mais se tem o discurso produzido, essa estratégia de “sedução”, o “info-entretenimento” sendo perpetualizado.
O jornalismo está longe de ser espelho do real, é, antes de tudo, uma construção social de “uma suposta realidade.” O telespectador não escolhe o que vai consumir, os editores, a emissora, buscam a audiência, não se tem como ideologia a difusão de cultura, da “totalidade da notícia”, devido a esse e vários outros fatores seremos sempre “escravos da superficialidade”.
Este artigo, ao mesmo tempo desafiador e aberto a questionamentos nos faz retornar à problemática apresentada por Felipe Pena, para nós profissionais da comunicação é uma proposta desafiadora: até quando iremos aceitar essa condição de se fazer jornalismo, essa ignorância, até quando iremos continuar “produzindo Hommer Simpsons” em nosso país? A simplicidade e a objetividade ao transmitir a informação não deve ser uma forma para manter a perpetuação desse sistema, mas um meio de transmissão dos fatos com seu real significado. Afinal, nós ”produtores de conceitos”, somos responsáveis por aquilo que difundimos.